Quarta-feira, Agosto 16, 2006

Artigo #1

O outro lado da farsa


Os Estados Unidos da América tem como princípio básico, ou pelo menos na ficção, nunca negociar com terroristas. O contrário do mencionado acima aconteceu aqui no Brasil. O repórter da Rede Globo Guilherme Portanova e o auxiliar técnico Alexandre Calado foram seqüestrados na tarde de sábado pela facção criminosa PCC. O auxiliar foi libertado com o intuito do entregar uma fita contendo uma mensagem em prol do grupo criminoso. A condição para soltar o repórter foi a de a fita ser exibida na tv. Depois de 40 horas de cativeiro, Portanova foi liberto após a apresentação da fita em rede nacional pela Rede Globo e suas afiliadas.

A questão que fica aberta para discussão não é se a mídia deve ou não negociar com grupos terroristas. Lógico que essa atitude foi tomada em cima de um ultimato. A vida sempre é mais importante que rixas políticas. O PCC, que muitos delegados e políticos insistem em dizer que não é organizada, tem o poder de vida em São Paulo. Eles são organizados sim. Eles lutam por sua própria sobrevivência. Eles não tem medo da morte.

A falta de segurança nacional, os desentendimentos do governo federal com o governo paulista e o descaso com a situação dos presos são alguns aspectos a serem pensados na questão da guerrilha urbana. Se ela existe é porque algo não está indo bem. É muito fácil para nós julgar estes criminosos. Ninguém vê em que meio eles vivem. A guerrilha ligada ao tráfico dá emprego e proteção para a classe marginalizada.


A questão a ser debatida está muito acima de a Globo ter divulgado ou não a tal fita. O que deve aparecer nos jornais é o porquê que este grupo está fazendo isso. Esta talvez seja a única forma que eles têm de mostrar para a população uma verdade que o governo tenta nos esconder. A maioria dos bandidinhos só foram para o mundo do crime porque não tiveram oportunidade.

Neste ano, que é de eleições, vamos cobrar dos novos governantes alguma atitude em relação à criminalidade. A segurança está ligada à qualidade de vida e o emprego ao número de bandidos. Apóio sim a atitude da Globo. Ela não agiu de má fé. Ela levou em consideração a vida, e a vida é sempre o principal. Cabe aos órgãos responsáveis tomar atitudes enérgicas com relação à segurança, desmanchar a comunicação das quadrilhas, dar uma qualidade mínima de vida aos presos, e o mais importante, possibilitar a sobrevivência de modo decente à classe pobre.